Abertura do VI Congresso Ordinário do MPLA
Luanda, 7 Dezembro de 2009
Camaradas delegados, distintos convidados, minhas senhoras e meus senhores.
Estamos aqui para proceder à abertura do VI Congresso Ordinário do MPLA. Nós somos 2.090 delegados, que representam 4 milhões, 705 mil e 436 militantes de todas as regiões do país, de diversos credos religiosos, de várias classes e camadas sociais, sem distinção de raça ou de sexo.
É nessa diversidade conscientemente aceite que se baseia a nossa unidade e reside a nossa força política e a nossa riqueza cultural e espiritual.
Os nossos princípios políticos e morais, os objectivos e métodos de organização e acção são concebidos tendo em conta as conquistas da Humanidade em geral e as aspirações e tradições do Povo angolano.
No Congresso Ordinário de 1980, o MPLA contava apenas com cerca de 35 mil membros nas suas fileiras, constituídas predominantemente por operários e camponeses pobres.
Os movimentos revolucionários nessa altura atribuíam às classes sociais, e à luta de classes em especial, um papel determinante no combate para a conquista do poder político e, uma vez obtido esse poder, ele devia ser exercido exclusivamente por representantes destas duas classes através da ditadura democrática revolucionária ou da ditadura do proletariado.
A aplicação destes princípios limitava sobre maneira o crescimento do Partido, a promoção da democracia pluralista e o exercício do direito à liberdade de expressão, associação e reunião pelos cidadãos e prejudicava igualmente os esforços que eram feitos para consolidar a unidade nacional.
Na década de 80 iniciámos um amplo processo de consultas dentro do Partido sobre a adopção do pluralismo político e consequente adaptação dos seus princípios ideológicos, que culminou com o Programa de Reformas Políticas e Económicas espelhadas nas conclusões dos Congressos Ordinário de 1990 e Extraordinário de 1991.
O MPLA refundou os seus princípios ideológicos, os seus objectivos estratégicos e os seus métodos de organização e acção, que ficaram consagrados no seu novo Programa e nos seus novos Estatutos.
No domínio da organização, em vez do princípio da produção para a organização e territorial para a Direcção, adoptámos o princípio territorial para a organização e Direcção e o Partido reorganizou-se a partir de zonas de residência.
De Partido selectivo de classe, onde a divisa era “é do Partido quem merece”, o MPLA transformou-se num partido de massas, aberto e democrático, onde “é do Partido quem quer”, desde que respeite os Estatutos e Programa, e “é da Direcção quem merece”, desde que tenha o perfil político ou técnico e moral requerido para materializar as deliberações dos Congressos e do Comité Central e seja escolhido em conformidade com os Regulamentos do Partido, fazendo-se assim uma simbiose do seu carácter de Partido de Massas com o de Quadros.
O objectivo central do nosso Partido é a construção de uma sociedade de bem-estar social, democrática e com justiça social, dotada de um sistema de protecção e segurança social adequado, onde as classes e camadas sociais cooperam na realização do desenvolvimento económico e social da Nação, ao mesmo tempo que lutam pelos seus interesses específicos.
Uma sociedade na qual, naturalmente, o poder político promove o diálogo e a concertação social, define as regras para uma gestão equilibrada dos interesses de todos e da relação entre o capital e o trabalho, assegurando-se, deste modo, uma vivência sã e ordeira fundada na Lei.
O MPLA preconiza, pois, uma sociedade na qual seja reconhecido o mérito do trabalho e a necessidade da sua remuneração justa, assim como a importância do papel do empresário, cujo objectivo final não será apenas o de criar e acumular riqueza para esbanjar, mas sim realizar investimentos onde for necessário, gerar empregos bem remunerados e contribuir para o aumento da produção de bens e serviços, cumprindo igualmente as suas obrigações fiscais.
São empresários desta índole que preferimos ter no nosso seio, porque têm perfeita consciência da sua função social e dos seus deveres cívicos no sistema económico.
O meio para a materialização destas intenções é a realização da democracia política, económica, social e cultural, consagrando o princípio segundo o qual todas as pessoas são iguais perante a lei e têm as mesmas oportunidades.
É igualmente a aplicação racional do princípio da regulação do sistema financeiro, e do bancário em especial, harmonizado com o da livre iniciativa económica dos empresários e da adopção de uma política fiscal progressiva, que garanta a geração constante de riqueza, uma redistribuição equilibrada do rendimento nacional e a eliminação das assimetrias regionais.
Caros delegados, distintos convidados. As transformações operadas no nosso Partido tiveram em conta as mudanças que ocorreram nas últimas duas décadas no mundo, e em particular no nosso país, a nível político, económico, social e cultural, sob a influência das novas tecnologias de informação e da evolução do conhecimento científico e técnico em geral.
O MPLA soube situar-se no sentido dessas transformações radicais, sem, contudo, perder as suas características e referências fundamentais e sem renunciar ao seu legado histórico e ao seu rico património político, resultante do combate pelas causas mais nobres do nosso povo.
O MPLA continua, assim, a ser parte integrante da Esquerda Democrática. Está no poder e luta pela sua preservação, não através de uma visão estreita da luta de classes apenas, mas através da luta abrangente nos planos político, económico, social e eleitoral, viável num sistema democrático pluralista.
O MPLA promove a cultura de solidariedade e da igualdade de oportunidades, mantém uma genuína preocupação com as camadas mais desfavorecidas do nosso país e tem por ideário um mundo de paz, justiça, liberdade e igualdade perante a lei, preconizando para o efeito políticas sociais justas e exequíveis nos domínios do trabalho, da saúde, da segurança social, da habitação e da cultura.
Tendo-se alterado o contexto de luta, o MPLA também teve de iniciar um processo de aprendizagem e de adaptação a novos instrumentos, a novas ideias, a novas abordagens políticas e ideológicas e a novos processos e métodos de trabalho, para poder ter um desempenho qualificado e consentâneo com as novas exigência da realidade angolana e do mundo actual.
A discussão no seu seio é livre e pode ser feita sobre qualquer assunto de interesse, assim como é permitida a crítica construtiva e a auto-crítica, que são vias de recurso para a superação de falhas e deficiências.
As principais decisões são tomadas nos órgãos colegiais por consenso ou por maioria e aplicadas por todos, mesmo pela minoria discordante. O militante ou
dirigente deve estar disponível para exercer as suas funções ou realizar as suas tarefas em qualquer parte do território nacional.
A palavra “akwakwisa”, que quer dizer “vindos de fora” e que está a ser utilizada nalgumas regiões por certos quadros do Partido por oportunismo e carreirismo para dificultar a acção de dirigentes e quadros naturais de outras regiões indicados pela Direcção do Partido, é inaceitável, porque é uma manifestação de regionalismo e tribalismo.
O tribalismo e o racismo minam a coesão e a unidade do Partido e da Nação e devem ser combatidos energicamente.
Por outro lado, o exercício democrático começa no seio das próprias fileiras do Partido, com a eleição dos seus órgãos colegiais e individuais de direcção a todos os níveis por voto secreto e liberdade de apresentação de candidaturas pela Direcção, por grupos de militantes e até mesmo por um militante individualmente, fazendo-se o apuramento pelo
sistema maioritário.
Neste particular, convém notar que o sistema de representação proporcional se tem revelado complexo e de difícil aplicação à nossa realidade.
O centralismo democrático foi definitivamente abandonado como método de direcção e eleição e o voto aberto deixou de ser regra e passou a ser excepção, já que ambos eram métodos que se opunham ou mesmo contrariavam a democracia interna do nosso Partido.
Estas transformações deram ao MPLA uma grande vitalidade e criaram as condições para um crescimento espectacular das suas fileiras. Somos hoje com orgulho o maior partido de Angola, o mais representativo, o mais forte e o mais capaz.
Eu, particularmente, também me sinto orgulhoso de ser um dos mentores da mudança que nos conduziu até à presente situação e de ter emitido as primeiras opiniões nesse sentido.
O novo rumo político permitiu-nos criar as condições para a conquista da paz e para a promoção da reconciliação nacional.
Permitiu-nos igualmente iniciar o processo de reconstrução material e espiritual da Nação após longos anos de conflito armado e definir um programa ambicioso de recuperação económica e desenvolvimento.
Podemos afirmar que as direcções cessantes de 1990 estiveram à altura dos acontecimentos e vencemos porque mudámos para melhor!
Hoje temos diante de nós novos desafios. O VI Congresso Ordinário chegará a essa conclusão ao apreciar o balanço da actividade desenvolvida desde 2003 a ser apresentado pelo Comité Central cessante.
Temos desde já de reconhecer que houve progressos consideráveis em muitas áreas, o que denota a dedicação, o empenho e o sentido de responsabilidade com
que alguns Camaradas encararam as tarefas que lhes foram incumbidas.
Contudo, temos de reconhecer também que o trabalho no domínio da formação política e da gestão dos quadros da nomenclatura não foi satisfatório e, por essa razão, esses processos não estão bem sistematizados, o que de certa forma não deixa de se reflectir na acção e desempenho do nosso Partido a todos os níveis.
Quanto melhor for a formação política, os conhecimentos teóricos e técnicos, as aptidões e qualidades pessoais dos militantes, bem como a nossa capacidade de gestão dos quadros, maior será a probabilidade de êxito do trabalho do nosso Partido.
Particular atenção deverá ser prestada ao domínio da formação política e gestão de quadros no futuro, tendo em conta a experiência e os bons resultados obtidos pelo MPLA há mais de duas décadas.
A grande questão que se coloca hoje aos nossos militantes é como levar o Partido MPLA, desde o ponto em que se encontra no presente, até ao lugar onde se pretende que esteja no futuro.
Esta grande questão encontra-se associada quer à nossa ideia de progresso e evolução do próprio Partido, quer à nossa concepção de desenvolvimento, bem-estar e felicidade dos cidadãos.
A materialização dos objectivos plasmados na Moção de Estratégia e no Programa do MPLA dá uma resposta clara a esta questão.
O que será necessário para esse efeito é uma Direcção Executiva esclarecida e dinâmica, o envolvimento dos militantes e de todos os órgãos e organismos do Partido e a concretização dos Planos com métodos correctos e disciplina.
Por outras palavras, quero dizer que devemos aperfeiçoar o modo de fazer e encarar a política, um modo proactivo e rigoroso, que mostre o nosso empenho e dedicação e sirva para mobilizar milhões para a nossa causa.
Melhorar e tornar cada vez mais eficaz a acção do Partido, trabalhando com as comunidades, com as populações e com a sociedade civil organizada.
Só desse modo o MPLA pode fazer jus à sua designação de Partido de Massas – Partido do Povo.
Caros camaradas e ilustres convidados, o trabalho do homem nem sempre é perfeito. Ao analisarmos o percurso feito até aqui, vamos naturalmente encontrar falhas e deficiências, apesar do nosso balanço ser globalmente positivo.
O estudo atento da realidade e dos factos com espírito crítico e auto-crítico é a atitude que devemos assumir para buscarmos com objectividade novos caminhos e soluções teóricas e práticas para as questões actuais e do futuro.
Uma destas questões da actualidade é o papel dos políticos na sociedade. Sabemos que estes exercem uma actividade importante e que a sua função é por isso considerada
nobre.
Aliás, nenhuma sociedade do mundo organizado funciona sem uma elite constituída por políticos.
Entretanto, hoje é voz corrente equiparar-se a pessoa investida em funções políticas com o homem sem palavra, desonesto, sem escrúpulos, etc. Há assim necessidade absoluta de se assumir atitudes positivas que desfaçam essa imagem pálida e inconveniente, por forma a credibilizar-se, a valorizar-se e a repor-se a nobreza da função dos dirigentes políticos.
Temos dito isto por outras palavras no MPLA, isto é: as nossas palavras e promessas devem corresponder aos actos que praticamos.
No exercício das suas funções, os políticos devem respeitar as regras estabelecidas e as leis, pautando a sua conduta por comportamentos e procedimentos éticos e tendo no centro das suas preocupações o respeito pela pessoa humana e a sua liberdade para o exercício da cidadania.
É inaceitável a política do “vale tudo”, que passa pela mentira, intriga, boato, manipulação de factos e imagens na comunicação social, etc., para prejudicar os outros.
Do mesmo modo não devemos pactuar com a corrupção ou com a apropriação indevida de meios do erário público ou do Partido.
Outra questão diz respeito à Sociedade Civil.
O nosso Partido pugna pela defesa das liberdades, direitos e garantias dos cidadãos e considera o direito à associação como sendo fundamental.
Por isso exprime a sua satisfação pelo surgimento de muitas organizações não governamentais (ong’s) angolanas e fundações e manifesta o seu reconhecimento pelo auxílio que prestam ao Estado e à sociedade na resolução de muitos problemas das populações carenciadas e das comunidades rurais.
Entretanto, exprime também a sua discordância com o facto de algumas ONG’s estarem a realizar tarefas e missões que competem aos partidos políticos.
Pretendemos uma sociedade organizada e ordenada, onde cada um ocupe o seu espaço e intervenha nos marcos da lei.
Temos, por isso, que promover o aperfeiçoamento dos nossos regulamentos para que não haja confusão.
Uma palavra de apreço, neste contexto, deve ser dirigida às organizações estudantis e juvenis que têm feito um excelente trabalho de educação patriótica, moral e cívica no seio da juventude, o que permite o enquadramento dos jovens em actividades úteis.
O nosso Partido conta com a contribuição da juventude na construção do presente e do futuro de Angola.
O MPLA continuará a dedicar uma grande atenção à formação dos jovens a todos os níveis, quer no ensino profissional, técnico e tecnológico, quer no domínio das ciências sociais ou noutros, por forma a melhorarmos os nossos índices de desenvolvimento humano e a termos quadros cientificamente e tecnicamente capazes de realizarem as tarefas da reconstrução e desenvolvimento nacional.
As questões relativas ao emprego, habitação e lazer não serão descuradas.
Exprimo o nosso reconhecimento à JMPLA, que é o nosso principal viveiro de quadros e que continua a ser a maior organização juvenil do país e a melhor
intérprete das legítimas aspirações da juventude angolana.
Transmito em nome da Direcção cessante e em meu nome pessoal uma saudação especial à OMA, Organização da Mulher Angolana.
A mulher angolana é a principal guardiã do nosso legado histórico e cultural. É ela quem melhor transmite às novas gerações os valores positivos da nossa cultura, as nossas línguas, tradições, usos e costumes e as bases iniciais para a socialização das nossas crianças.
É um papel insubstituível que devemos preservar e enriquecer com a contribuição do homem.
A OMA cresceu muito e está no bom caminho. Ela continuará a ser a melhor conselheira do Partido no estudo e procura de soluções para os problemas da mulher e da família.
Temos uma herança social pesada do colonialismo, que foi agravada pelo longo período de guerra que o país viveu.
Em cada 100 angolanos, cerca de 60 são muito pobres, não conseguem comer normalmente todos os dias, não sabem ler nem escrever, não têm acesso fácil à água potável e aos cuidados primários de saúde, nem casa normal para se abrigar.
O desemprego, o analfabetismo e a pobreza são três problemas muito graves, difíceis de resolver e que atingem principalmente as mulheres e a vida das famílias e das crianças em particular.
Quando terminou a guerra, o Partido orientou o governo a priorizar a resolução dos problemas das pessoas deslocadas, a reinserção social dos ex-militares e a reabilitação das vias de comunicação e pontes para chegarmos a todos os pontos do país. O povo colaborou.
Agora os esforços do Partido e de toda a sociedade e uma grande parte dos recursos do país devem ser canalizados para a eliminação progressiva da pobreza, da fome, do analfabetismo e do desemprego.
A criança deve ser a primeira a beneficiar deste empenho. Um bom investimento na formação e bem-estar da criança é a garantia de um futuro melhor para Angola.
Ao terminar, endereço uma palavra de apreço e reconhecimento aos Antigos Combatentes, aos Oficiais, Sargentos, Soldados e Agentes das Forças Armadas e Policiais, que defenderam com coragem e sacrifício a nossa Independência e a integridade do território nacional e criaram as condições para que conquistássemos a paz e a liberdade.
Endereço também os meus agradecimentos a todos os convidados nacionais e estrangeiros que tiveram a
gentileza de prestigiar esta cerimónia com a sua presença.
Exprimo igualmente a minha gratidão a todos os que estiveram envolvidos na preparação do Congresso e que contribuíram para que ele se realizasse nas melhores condições possíveis.
Declaro aberto o VI Congresso do Partido MPLA.
Muito Obrigado!