Luanda – Os músicos angolanos Filipe Mukenga e Wiza, a quem coube as honras de abrir a 2ª edição do Luanda Internacional Jazz Festival conseguiram granjear a simpatia do público na abertura do espectáculo, apresentando cada um nuances e particularidades sonoras que “arrancaram” aplausos do público.
Numa noite em que o frio se fazia sentir e o Cine Atlântico ainda se compunha com a chegada dos convidados, a responsabilidade de abrir o show ficou a cargo de Filipe Mukenga, que algo ressentido começou a cantar, às 19h30 minutos, com uma notável pouca inspiração - antes não fosse a pressão e a ansiedade que se gerou em torno do evento.
Mas, experiente e calmo, Mukenga não se deixou levar pelo frio e em pouco menos de 15 minutos se recompôs e fez jus ao seu nome. Deu várias tocadelas a sua guitarra e começou, então, a deleitar a plateia com os seus sons afro bits, com grande marco de angolanidade e bem acompanhados pela sua banda.
Mas, nem com isso era chegada ainda a hora dos aplausos! O relógio já assinalava 19 e 45 minutos.
Só depois de meia hora de actuação, o público, diversificado entre angolanos e estrangeiros, começou a render-se, e em uníssono, se deixou convencer pelo brilhantismo de Mukenga, sobretudo com a canção “Eu sou filho de Angola”.
Ai sim! Mukenga provou porque razão o seu nome figura entre os grandes da música angolana. Já inspirado cantou muitas outras que preenchem o seu vasto repertório, já consagrado com quatro discos, o que deixou, visivelmente, o público maravilhado, tendo, por isso, cumprido com as honras da casa em uma hora e 10 minutos de performance artística.
Feito o trabalho inicial, por Filipe Mukenga, na abertura do show, a oportunidade foi dada a um outro músico angolano, desta feita, da nova vaga de artistas: Wiza. O relógio já apontava para lá das 20.
Calmo e ao mesmo tempo algo irrequieto, Wiza parecia já feliz e entrosado com o seu público que, diga-se, já vinha aquecido com as sonoridades de Mukenga.
Daí, a Wiza, a responsabilidade se apresentava maior, pois cabia-lhe a “dura missão” de dignificar o trabalho iniciado pelo seu “mais velho Mukenga", que se esbateu para fazer a audiência esquecer o frio de cacimbo que se fazia sentir no Atlântico e aquecer o corpo com a sua fusão musical.
Diga-se que não era fácil para o seu sucessor. Mas Wiza montou uma estratégia que surtiu efeitos. Começou a sua actuação com músicas vibrantes e manteve-se nesta linha melódica, numa actuação em que a sua banda não claudicou. O menino nascido no Uíge, hoje com 25 anos, fez dançar a plateia. Criticas não se ouviram, pois Wiza transformou, musicalmente, o Atlântico em chamas, num cenário em que a cultura estava em alta.
Mas a noite não se resumiu a Filipe Mukenga e Wiza. Faltavam outras descobertas.
Para lá das 21h30 minutos, subiu ao palco um "monstro" da música Zimbabweana: Oliver Mtukudzi, de voz quente e roca. O seu amigo inseparável é a guitarra.
Logo no início mexeu com a plateia, com acordes da sua viola, acompanhada por ritmos de batuque forte e outros instrumentos musicais, que o transformaram num verdadeiro homem da noite, parecendo que queria competir – não lhe fosse identificado o enorme prazer da música que lhe corria pela alma.
Os seus sons, uma mistura dos estilos Chimurenga, Jit e Mbira (locais do Zimbabwe), assemelhavam-se às sonoridades do Congo Democrático, mas ligeira diferença de serem cadenciadas em tons mais pausados e naturais.
Em uma hora e 15 minutos de actuação, Mtukudzi, de estatura para cima de 1, 90 conciliou o poder dos seus ritmos com uma dança que lhe é muito peculiar, tendo, por isso também, mexido com a plateia do Atlântico, que lhe reconheceu originalidade musical.
Depois de Mtukudzi, e o relógio já marcando hora 23, seguiram-se outros nomes: o grupo 340ml (Moçambique), Ronny Jordam (EUA), o angolano Nanuto e Freshlygroud (Africa do Sul).
Longe de querer defraudar, e numa declarada incessante luta de segurar o público, estes grupos deram uma verdadeira aula de Word music. Mostraram que música e arte é vida e que bastava ser bem executada para prender as audiências.
Assim aconteceu até pouco mais das duas da manhã, tocando e cumprindo com o seu papel, numa noite ritmicamente afro e culturalmente universal, pois no Atlântico estiveram pessoas oriundas de vários países e classes sociais diferentes, num clima de grande convívio e cordialidade.
A 2º edição do Luanda Festival Jazz, que hoje teve o seu inicio, tem como cabeça de cartaz o norte americano Jorge Besson. O evento reserva três noites de espectáculos até domingo, na capital angolana.