Luanda – Data de 1980, ano da terceira edição do Carnaval em liberdade, a primeira conquista do União Mundo da Ilha no Entrudo luandense, uma manifestação popular em que conquistou, durante quatro décadas, o estatuto de recordista e incontornável defensor das tradições da Ilha do Cabo.
A sua história remonta à época da redefinição e afirmação dessa magna “festa” cultural no país, na sequência de um amplo movimento “forçado” pelo União da Baixa e União dos Musseques, dos quais derivaram, nos anos 40, dois importantes grupos do Carnaval: Cidrália e Invejados.
O primeiro defendia uma postura mais assimilada, enquanto o outro trazia uma visão mais folclórica, aumentando o interesse e a "febre" dos nativos em dançar o Entrudo, num período de forte domínio colonial.
Foi nesse clima de euforia que nasceu, na Ilha do Cabo, município da Ingombota, em Dezembro de 1968, o histórico União Mundo da Ilha, segundo no alinhamento do desfile central da classe A, a 16 de Fevereiro.
Surgido sete anos antes da conquista da Independência Nacional, a 11 de Novembro de 1975, o grupo ajudou a tornar competitivo, espontâneo e aberto o Carnaval para todos os indígenas, mas só ao cabo da terceira edição iniciou o passo firme rumo à hegemonia do “ranking”.
Detentor de 12 troféus, iniciou a sua façanha com uma geração já quase inexistente ou, no mínimo, afastada do palco dessa grande festa popular.
Ainda assim, alguns dos seus veteranos resistem e passam o testemunho a centenas de jovens herdeiros, que mantém viva a chama do grupo, facilmente identificado pela sua gigante falange de apoio.
António Custódio é o seu actual presidente. Quando tudo se iniciou, em 1968, era criança. Porém, a vontade e curiosidade de dançar o Carnaval fizeram dele, a médio prazo, um dos bailarinos de serviço do representante da Ilha do Cabo.
Apesar de representar o município da Ingombota, o grupo foi fundado de forma espontânea, no bairro Marçal, município do Rangel, por causa da paralisação de outras agremiações, como o Sengesa e Hungu.
Segundo relatos de membros do Mundo da Ilha, a iniciativa da sua criação veio de algumas jovens, como Valéria António, Maria Manuel e Chiminha Afonso, que formaram o grupo nas missas do familiar de um cidadão ilhéu.
(A mística e indumentária do União Mundo da Ilha)
O União Mundo da Ilha encarna em si o aspecto tradicional da continuidade e defesa dos valores ancestrais, mas tem vindo a adaptar-se à contemporaneidade, constituindo-se em símbolo da ligação hereditária das linhas estruturantes do Carnaval angolano.
De acordo depoimentos de António Custódio, a tradicional roupa preta apresentada nos desfiles tem a ver com a história, ou seja, representa a viúva que inspirou a criação do grupo, em 1968.
A roupa vermelha simboliza o xinguilamento - um velho ritual do povo ilhéu para evocar os espíritos, enquanto o traje das varinas têm somente relação com a filosofia dos responsáveis e dos Reis.
Nos desfiles, o Mundo da Ilha mostra saias varinas para as mulheres, às quais se acresce o avental sobreposto à blusa e na cabeça o lenço ou chapéu.
É também visível uma ala vestida à bessangana, na maioria com veteranos.
A cor vermelha predomina nesse grupo, representando o xinguilamento, e os panos coloridos de mabela, chita e jiloche simbolizam as cerimónias festivas. O traje é composto de panos, quimones, lenços ou turbantes, acompanhados de missangas no
pescoço e nos pulsos de cada integrante.
A isso, juntam-se as quindas e bacias à cabeça, contendo o essencial do labor das gentes da Ilha: o peixe.
Os homens apresentam-se com panos de chita amarrados à cintura, uma camisola interior, algumas vezes juntando-lhe o casaco, o turbante ou chapéu de palha. Nesta ala, encontram-se os marinheiros, representando a pesca.
Já a corte, apresenta-se com trajes vislumbrantes, com bastante colorido, embora sejam visíveis outros elementos. Aí, constam os índios, o zorro vestido de preto (imitação do lendário figurante do cinema) e as enfermeiras.
(Personalidades de destaque)
Segundo pesquisadores, Esperança Francisco teria sido a primeira Rainha do União Mundo da Ilha, e uma das mais tituladas nos desfiles centrais de Luanda. Beatriz António desempenhou o mesmo papel nos últimos quatro anos, embora faça parte do grupo desde 1968, na altura como varina.
Ela dançou apenas um ano como Princesa de Esperança Francisco.
(A essência da música)
A música do grupo é caracterizada pelo canto melódico, em que se expressam os sentimentos, as ânsias e a espiritualidade do povo ilhéu, preocupado com o meio que o rodeia, com as suas gentes e com o futuro.
As letras adequam-se aos vários contextos do país e retratam o quotidiano, variando entre temas de intervenção e piadas, quando atacado por outro grupo.
Para fazer parte do leque de cantores do Mundo da Ilha, passa-se por alguns critérios de selecção, com muitos candidatos. Para ser escolhido, é necessário conhecer a tradição e dominar o kimbundu.
Falar do passado desse concorrente é, segundo o pesquisador Dionísio Rocha, “descrever um grupo que simboliza a história do Carnaval de Luanda e de Angola em geral, não só pelos 12 títulos conquistados, mas também pela mística, persistência e criatividade demonstradas em 42 anos de Entrudo”.