Cidade do Vaticano - O ex-secretário de Estado do Vaticano Angelo Sodano expressou quarta-feira "amargura" pelas declarações do teólogo dissidente Hans Kung, de que a Igreja pode converter-se numa seita, afirmações que diz serem "genéricas e não provadas".
"Hoje senti-me ferido interiormente ao ler a entrevista que terá concedido o reverendo professor Hans Kung ao diário francês Le Monde. Se o texto é exacto, tenho a obrigação de dizer que se trata de afirmações genéricas e não provadas. Sou testemunha pessoal do compromisso do Papa para fazer da Igreja uma família, a família dos filhos de Deus", afirmou o decano do Colégio Cardinalício à Rádio Vaticano.
O que foi durante 15 anos "primeiro-ministro da Santa Sé", 14 com João Paulo II e um com Bento XVI, considerou que a crítica fraterna "sempre é possível" na Igreja desde os tempos de São Pedro, "mas uma crítica amarga, ainda mais se é genérica, não contribui para a unidade da Igreja para a qual tanto trabalha o papa Bento XVI".
O teólogo dissidente suíço alertou, numa entrevista publicada terça-feira pelo "Le Monde" para o risco de a Igreja Católica se converter numa seita e denunciou as posições conservadoras do Papa Bento XVI assim como a sua decisão de reabilitar os quatro bispos "lefebvrianos", um dos quais, Richard Williamson, negou o Holocausto judeu.
"A Igreja corre o risco de converter-se numa seita. Muitos católicos não esperam nada deste Papa e isso é muito doloroso", assegurou o teólogo, acrescentando que Bento XVI teria que reconhecer que a Igreja Católica atravessa uma "crise profunda" e depois tomar medidas como anular o celibato sacerdotal e a normativa que proíbe qualquer tipo de contracepção.
Kung, antigo companheiro do Papa na Universidade alemã de Tubingen, considera ainda que Joseph Ratzinger tem uma posição "ambígua" sobre os textos do Concílio Vaticano II, por não se sentir cómodo com a modernidade e a reforma.