Damasco - O presidente sírio Bashar al-Assad voltou a se defender das acusações de ter ordenado atirar contra o seu próprio povo e prometeu uma reforma, com um referendo em Março, mas acusou os estrangeiros de tentar desestabilizar o seu país e prometeu combater o terrorismo com "mão de ferro".
Num discurso de 45 minutos, transmitido pela televisão estatal nesta terça-feira, o presidente sírio, que enfrenta há meses uma rebelião popular, anunciou a organização de um referendo em Março para mudar a actual Constituição, que confere um papel dominante ao partido Baath.
"Quando a comissão sobre a nova Constituição encerrar os seus trabalhos, acontecerá um referendo na primeira semana de Março", afirmou Assad.
"E esta consulta poderá ser seguida por eleições gerais em Maio, já com a nova Carta Magna em vigor", completou.
Antes de anunciar o referendo, Assad atacou as potências estrangeiras.
"Interesses regionais e internacionais que estão a tentar desestabilizar a Síria não podem mais falsificar os factos e os eventos", afirmou Assad, num discurso exibido pela televisão síria.
"Nenhuma autoridade deu ordem alguma para abrir fogo contra os manifestantes. Governo com a vontade do povo e, se renunciar ao poder, também será pela vontade do povo", completou.
Assad acusou fundamentalmente os meios de comunicação regionais e internacionais de "tentar incessantemente que a Síria caia".
"Apesar do fracasso, não se dão por vencidos", acrescentou.
"Tentaram atingir o líder falsificando a minha entrevista ao canal americano ABC", completou.
No início de Dezembro, o regime sírio acusou a emissora de ter alterado deliberadamente as declarações de Bashar al-Assad na exibição de uma entrevista com o presidente sírio, para apresentar o país sob um ângulo negativo.
No mesmo discurso, Assad prometeu usar "mão de ferro" para enfrentar o terrorismo, poucos dias depois de um atentado que matou 26 pessoas em Damasco, um ataque atribuído pela oposição ao próprio regime.
"Não pode existir alívio para o terrorismo, o combateremos com mão de ferro. A batalha contra o terrorismo é uma batalha nacional, não uma batalha do governo", concluiu o chefe de Estado.
"Não podemos tolerar aqueles que aterrorizam as pessoas, ou aqueles que são cúmplices com (partes) estrangeiras", disse ainda.
"A batalha com o terrorismo é a nossa luta de todos, todos devem participar, mas um Estado forte é um Estado que sabe perdoar", acrescentou.
Mas voltou a negar que tenha ordenado às forças de segurança agir com violência durante as manifestações contra o seu governo.
"Nenhuma ordem foi dada da parte de qualquer autoridade para abrir fogo contra os manifestantes", afirmou Assad, enfatizando que, "segundo a lei, ninguém pode abrir fogo excepto em caso de auto-defesa".
"Eu governo com a vontade do povo e se eu renunciar ao poder, também será pela vontade do povo", acrescentou al-Assad, que sucedeu o seu pai em 2000.
Pouco antes, durante um discurso na Igreja de Santa Cruz de Damasco, transmitido pela televisão, o Grande Mufti da Síria, Sheikh Ahmad Badreddine Hassoune, convidou os adversários a "depor as armas" durante uma missa de muçulmanos e cristãos em memória de 26 vítimas mortas na sexta-feira num atentado suicida em Damasco.
"Se quiserem participar no poder apresentem os seus programas, sem empunhar as armas, e, se nos convencerem, nós os aplicaremos", afirmou o mufti, cujo filho, Sariah Hasun, foi morto em Outubro passado numa onda de atentados contra os aliados do governo.
O discurso de Assada acontece em plena controvérsia sobre a missão de observadores da Liga Árabe, presente na Síria desde 26 de Dezembro para elaborar um relatório sobre a situação no país.
Apesar das críticas pela repressão que nos últimos dias continuou a cobrar vítimas, esse organismo decidiu no domingo manter e reforçar a sua missão.