Jerusalém - Israel anunciou hoje ter mantido conversações sobre a questão nuclear com o Irão, em contactos bilaterais sem precedentes desde a revolução islâmica de 1979, uma informação que Teerão desmentiu rapidamente.
"Aconteceram reuniões entre uma representante da nossa comissão e um funcionário iraniano, num marco regional", declarou Yael Doron, porta-voz da Comissão de Energia Atómica de Israel, à France Presse.
"Os encontros aconteceram a portas fechadas e não deveriam ter sido divulgados, mas a Austrália, que organizou os mesmos, considerou adequado fazé-lo", concluiu, recusando-se a revelar mais detalhes.
"Houve reuniões entre uma representante da nossa comissão (de energia atómica) e um funcionário iraniano, num marco regional", declarou à France Presse Yael Doron, porta-voz dessa comissão, mas o porta-voz do primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, Mark Regev, contactado pela mesma agência, negou-se a comentar a informação.
O governo do Irão negou imediatamente a notícia.
"Esta mentira é um acto de propaganda que pretende comprometer o êxito da diplomacia iraniana nas reuniões de Genebra e Viena", afirmou o porta-voz da Organização Iraniana de Energia Atómica (OIEA), Ali Shirzadian, em referência aos encontros que o Irão realiza com as potências mundiais para tentar apaziguar as tensões provocadas pelo seu programa nuclear.
"A República Islâmica do Irão não reconhece o regime sionista e o considera um regime fantoche e ilegítimo", acrescentou.
A República Islâmica do Irão, criada após a revolução de 1979, não reconhece a existência de Israel e o seu presidente, Mahmud Ahmadinejad, já afirmou várias vezes que o Estado hebreu seria "apagado do mapa".
Segundo uma fonte egípcia que teria participado nas conversações, a reunião do Cairo foi polémica e marcada por uma "troca de acusações".
"Soltanieh declarou que os iranianos não tinham bomba atómica e não queria ter, mas os israelitas disseram que isso não era verdade", explicou o participante que não quis ser identificado.
Israel acusa o Irão de querer produzir armas atómicas e considera o programa nuclear iraniano, aliado à fabricação de mísseis de longo alcance, uma ameaça a sua própria existência.
O Estado hebreu não descarta uma acção militar contra as instalações nucleares do Irão.
Teerão sempre negou fins militares no seu programa nuclear e alega que o mesmo tem o objectivo apenas de produzir energia com fins civis.
Analistas estrangeiros estimam que Israel tem 200 ogivas nucleares.
Segundo o jornal israelita Haaretz, as reuniões Israel-Irão giraram em torno de um eventual fim dos programas nucleares no Médio Oriente.
Os encontros tiveram as presenças de Meirav Zafary-Odiz, directora de acompanhamento do controlo de armamentos nucleares da Comissão de Energia Atómica de Israel, e de Ali Ashgar Soltanieh, representante do Irão na Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).
O jornal afirma ainda que os encontros aconteceram em várias sessões em 29 e 30 de Setembro, em um grande hotel do Cairo, na presença de delegados da Jordânia, Egipto, Tunísia, Marrocos e Arábia Saudita, além dos Estados Unidos e da União Europeia, sob a mediação da Comissão Internacional para a Não Proliferação Nuclear.
O Haaretz cita uma testemunha que afirma que Soltanieh perguntou directamente a Zafary-Odiz se Israel dispõe de armas nucleares e esta se limitou a sorrir, sem dar uma resposta.
A representante israelita afirmou, também de acordo com o Haaretz, que o seu país concorda com o princípio de discutir uma desnuclearização do Médio Oriente, mas que primeiro é necessário reforçar a segurança regional e chegar a acordos de paz.