Luanda – Mais de mil milhões de pessoas encontram-se sub-nutridas em todo mundo, disse o director geral do Fundo das Nações Unidas Para Agricultura e Alimentação (FAO), Jacques Diouf, numa mensagem por ocasião do Dia Mundial da Alimentação, assinalado nesta sexta-feira.
Segundo o director da FAO, esta cifra representa quase 100 milhões mais do que o ano transacto, significando que uma em cada seis pessoas passa fome todos os dias.
De acordo com o responsável, nos últimos três anos produziram-se acontecimentos especialmente trágicos que demonstraram quão frágil é o sistema alimentar à escala mundial.
“Este recente incremento da fome não é resultado de más colheitas em todo o mundo, longe disso, mas certamente uma consequência da crise económica mundial, que provocou uma redução dos rendimentos e das oportunidades de emprego dos pobres e duma redução significativa do seu aceso aos alimentos”-lê-se no documento.
Por esta razão, disse, o tema escolhido para o Dia Mundial da Alimentação e Tele-Alimento em 2009 é “Conseguir a Segurança Alimentar em Época de Crise”.
Segundo afirmou, num momento em que os efeitos da crise económica mundial dominam as notícias, é importante recordar à comunidade internacional que nem todos trabalham em escritórios ou fábricas nem em bancos. A crise afecta também as explorações agrícolas em pequena escala e as zonas rurais, onde vive e trabalha 70 % dos famintos do mundo.
Na sua óptica, a crise actual é resultado de um rápido e acentuado aumento dos preços dos alimentos básicos verificado entre 2006 e 2008. O recente ajuste em baixa não deveria interpretar-se como o final da crise alimentar.
Na África Subsahariana, esclareceu, de 80 a 90 porcento de todos os preços dos cereais monitorados pela FAO em 27 países, continuam superiores em mais de 25 % do que antes do início da crise dos preços dos alimentos, há dois anos.
Relativamente à situação na Ásia, na América Latina e nas Caraíbas, disse que 40 a 80 % dos preços dos cereais dos 31 países que a FAO está a monitorar são mais altos em cerca de 25 % que no período anterior à crise alimentar.
Por outro lado, frisou, a produção ainda se vê obstaculizada pelo aumento do custo dos insumos, 176 % no caso dos fertilizantes, 70 % das sementes, 75 das rações para os animais, tornando mais difíceis os investimentos agrícolas. Estes incrementos colocam os insumos básicos muito longe do alcance de milhões de agricultores.
Por outro lado, observou que os países em desenvolvimento estão muito mais integrados desde o ponto de vista financeiro e comercial na economia mundial, o que implica que uma queda da demanda ou da oferta global e da disponibilidade de crédito tem repercussões imediatas nos países em desenvolvimento.
Notou também que, devido ao carácter mundial da crise, os mecanismos usados normalmente pelas famílias para resistir às crises económicas encontram-se no limite. Prevê-se que o investimento estrangeiro directo, incluído na agricultura, diminuirá mais de 30 porcento em 2009.
Na mensagem, o director chama à atenção de que a redução do emprego nas zonas urbanas poderia obrigar aos que buscam trabalho a regressar às zonas rurais. As remessas dos emigrantes, que anteriormente cresciam a taxas anuais de até 20 porcento e em 2008 totalizaram 300 000 milhões de dólares americanos, poderiam experimentar uma diminuição de cerca de cinco a oito porcento em 2009.
Informou que o Fundo Monetário Internacional prevê que a ajuda estrangeira aos 71 países mais pobres cairá ao redor de 25 porcento. Nos mercados financeiros, o crédito poderia não estar disponível, devido à avaliação mais estrita do risco, e exigir uma perspectiva de risco mais alta.
“A crua realidade é que a menos que se adoptem de imediato medidas correctivas subtanciais e sustentáveis, o objectivo da Cimeira Mundial sobre a Alimentação de reduzir o número de pessoas famintas à metade - até um máximo de 420 milhões de pessoas - não será alcançado até o ano 2015, aconselhou.
Disse haver vontade política forte para combater a fome no mundo, em alusão ao comunicado conjunto de L'Aquila sobre a segurança alimentar mundial da reunião do G-8 realizada na Itália em Julho último, no qual foi aprovada uma mudança radical de estratégia, dando prioridade ao aumento da produção dos pequenos agricultores dos países em desenvolvimento com deficit alimentar.
De acordo com o director, está previsto, neste sentido, mobilizar 20 000 milhões de dólares americanos ao longo de três anos para o financiamento do referido programa. “Agora é preciso traduzir este compromisso em medidas concretas. Além disso, a comunidade internacional de doadores deveria voltar a devotar, quanto antes possível, 17 porcento da assistência oficial para o desenvolvimento à agricultura”- disse.
De acordo com o responsável da FAO, actualmente é necessário um nível similar de recursos para alimentar mais de 1000 milhões de pessoas que padecem fome e conseguir que a população mundial, que provavelmente aumentará em mais de 9000 milhões de pessoas até 2050, tenha suficiente para comer então.
Além dos recursos financeiros, sublinhou, há uma série de problemas fundamentais que devem ser resolvidos, em particular, o modo de canalizar a ajuda e a forma de conseguir que chegue efectivamente aos pequenos agricultores, assim como a reforma do sistema de governação da segurança alimentar mundial, por uma maior coerência nas acções dos governos e dos parceiros de desenvolvimento, a parte dos orçamentos nacionais dedicados à agricultura e os investimentos do sector privado.
Especialmente em tempos de crise, disse, é importante que não se reduza o apoio à agricultura. Somente um sector agrícola saudável, combinado com o crescimento da economia não agrícola e com redes de segurança e programas de protecção social efectivos, permitirão fazer face à recessão mundial e erradicar a insegurança alimentar e a pobreza.
“A finalidade da Cimeira Mundial sobre a Segurança Alimentar, que se realizará em Roma de 16 a 18 de Novembro, é manter o problema da insegurança alimentar no primeiro lugar da agenda internacional, para que o direito humano mais fundamental, o direito à alimentação, seja respeitado”, concluiu.