Cidade da Praia - A frase foi clara: "O meu sonho está cumprido". O sonho do primeiro Presidente de Cabo Verde foi um conjunto de ideais, que passaram pela independência, pela democracia e pelo desenvolvimento, escreveu hoje (quinta-feira) a Agência Lusa.
Estas declarações foram feitas à Agência Lusa a 22 de Janeiro de 2010, quando Aristides Pereira, hoje falecido em Coimbra (Portugal), foi homenageado pelo Partido Africano da Independência de Cabo Verde (PAICV, no poder) na abertura do XII Congresso da força política a que sempre pertenceu.
Aristides Pereira, natural da ilha cabo-verdiana da Boavista, onde nasceu a 17 de Novembro de 1923 (88 anos), acaba de falecer após uma vida dedicada à causa cabo-verdiana, sobretudo como político, pois confunde-se com a História do antes e do pós-independência de Cabo Verde, de que foi o primeiro Presidente (1975/91).
Um dos cofundadores do Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), em 1956, Aristides Pereira foi, ao lado de Amílcar Cabral, Luís Cabral, Fernando Fortes, Júlio de Almeida e Elisée Turpin, um dos principais dinamizadores do movimento que lutou pela emancipação das duas antigas colónias portuguesas.
Mas foi o primeiro a chegar à conclusão de que a unidade entre os dois países -- na génese do PAIGC estava a criação de uma Federação entre Cabo Verde e a Guiné -- era difícil de concretizar, quando João Bernardo "Nino" Vieira, a 14 de Novembro de 1980, liderou o golpe militar em Bissau que derrubou o regime de Luís Cabral.
Depois de uma intensa troca de cartas com "Nino" Vieira, o Presidente de Cabo Verde e da então bicéfala direção do PAIGC rompe com o partido e, em 1981, cria-se, na Cidade da Praia, o PAICV, que põe definitivamente termo ao sonho de Cabral.
Moderado, discreto e pragmático, Aristides Pereira publicou duas autobiografias, sendo um dos poucos chefes de Estado africanos que o fizeram, em que assume erros na governação e nalguns dos ideais, mas em que garante também que o caminho tomado por Cabo Verde foi o "possível", dadas as circunstâncias, mas um "êxito".
Assumindo que um dos ideais de Amílcar Cabral era a Educação de um povo, sobretudo num arquipélago praticamente abandonado por Portugal, em que tudo faltava, desde alimentos a combustíveis, em que a seca era frequente e a assistência médica era praticamente nula, Aristides Pereira, apoiado pelo então primeiro-ministro Pedro Pires, começou, logo em 1975, a concretizá-lo.
"Tempos difíceis", foi como rotulou os primeiros anos da independência, em que, curiosamente, o primeiro empréstimo bancário, para fazer face às despesas, veio da antiga potência colonizadora, Portugal, o permitiu começar a edificar o Estado.
Numa entrevista feita em meados da década de 1990 pelo jornalista português José Pedro Castanheira para o jornal Expresso, Aristides Pereira afirmou que, antes da independência, se pensou em manter Cabo Verde como uma região autónoma de Portugal, tal como Açores e Madeira, ideia que viria a desmentir mas sem sucesso.
Em 1991, logo após a abertura política, Aristides Pereira é derrotado nas primeiras eleições pluralistas da História de Cabo Verde por António Mascarenhas Monteiro, abandonando, de seguida, a política ativa para se dedicar às biografias.
"O meu sonho está cumprido. O sonho da independência, da democracia e do desenvolvimento está cumprido".