Lisboa - Vários amigos e familiares do falecido pintor moçambicano Malangatana reuniram-se segunda-feira, no Teatro São Luiz, em Lisboa, para contar histórias e memórias do artista, mas, principalmente, homenagear aquele que é considerado o melhor pintor africano.
No dia em comemoraria 75 anos, numa homenagem organizada pela União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa (UCCLA) e pela Câmara de Lisboa, amigos e familiares recordaram o artista, mas também os seus sonhos.
Alfredo Caldeira, da Fundação Mário Soares, disse que "evocar Malangatana é sobretudo celebrar a vida".
O representante daquela fundação lembrou que conheceu o pintor moçambicano quando "se pôs a hipótese de preservar a sua extensa coleção de fotografia" e, desde então, "sempre tiveram uma relação fraterna".
Apesar da morte do pintor, de doença prolongada, a cinco de Janeiro, a Fundação Mário Soares mostrou-se disponível para "continuar o trabalho" de recolha de arquivo.
"É nosso projecto criar o site do projecto Malangatana até ao final deste ano e no primeiro ano do seu falecimento queremos fazer uma boa exposição sobre a Casa Sagrada em Maputo", avançou Alfredo Caldeira.
O filho mais velho do pintor, Mutxine Ngwenya, lembrou por sua vez as "aventuras de comboio" que fazia com o pai, quando tinha três, quatro anos.
"Não eram só turísticas como eu pensava que eram. Basicamente os companheiros de viagem do meu pai no comboio eram membros da FRELIMO na clandestinidade. E eu ia bebendo a conversa sobre a resistência, cultura: sobre Moçambique", recordou Mutxine Ngwneya.
O também representante da Fundação Malangatana lembrou igualmente "o sonho" que o pai "não conseguiu concretizar em vida: a criação da sua própria fundação".
Apesar dos primeiros passos em 2008, faltou o espaço físico -- "Malangatana queria construir a sede na sua terra natal" -- e nunca chegou o financiamento para concretizar o projecto do arquiteto Pancho Miranda Guedes, como "desejava".
A última obra de Malangatana -- a pintura de um Fiat 500 que está em leilão aberto até Julho -- foi "a forma que o pintor criou para encontrar os primeiros meios financeiros para apoiar o seu sonho", disse Mutxine Ngwneya.
O filho do artista prometeu também levar para a frente a missão da Fundação: "Vamos lutar para conservar e preservar o espólio de Malangatana, vamos conservar o espólio que deixou à Fundação e todas as peças que pertencem a família. Só isso é que permite divulgar e permitir que gente de todo o mundo se debruce sobre aquilo que foi a sua vida e obra e que a estude, critique e analise".
Também o conselheiro de Estado Marcelo Rebelo de Sousa contou um sonho que teve com a sua mãe, no qual esta lhe explicou as conversas que teve com o pintor.
"No sonho, a minha mãe perguntou-lhe o que é que sentia olhando para trás, cá para baixo. Ele respondeu que tinha gostado de tudo, dos novos, dos velhos, da luta pela independência, da emancipação das mulheres. Mas que o melhor do mundo era as crianças", disse Marcelo Rebelo de Sousa.
Ainda a presidente da Cinemateca, Maria João Seixas, lembrou a primeira vez que conheceu Malangatana, as vezes que foram ao Cineclube em Lourenço Marques (actual Maputo) e as vezes que a ensinou -- e incentivou -- a dançar.
Malangatana Valente Ngwenya nasceu a 06 de Junho de 1936 em Matalana, uma povoação do distrito de Marracuene, às portas da então Lourenço Marques.
Nos últimos 50 anos foi também muito mais do que pintor. Além das artes plásticas, foi poeta, actor, filantropo e até deputado, da FRELIMO, partido no poder em Moçambique desde a independência.