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29 Novembro de 2010 | 08h45 - Atualizado em 29 Novembro de 2010 | 12h03

Igreja Kimbanguista defende reabilitação de Kimpa Vita

Cabinda

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Reverendo Joaquim Kilombo

Foto: Angop

Cabinda – A igreja kimbanguista defende a reabilitação efectiva e total de Kimpa Vita por parte do estado e governo angolano, como heroína da resistência cultural que aceitou o cristianismo enquanto projecto universal, lutou e morreu pela sua implantação com base na realidade africana.

Em entrevista exclusiva à Angop, o reverendo Joaquim Kilombo, da direcção da igreja kimbaguista em Angola, explicou que por reabilitação total, entende-se a promoção de esforços e iniciativas que levem, do ponto de vista administrativo, político e jurídico, à revisão dos processos, visando a sua desculpabilização pelos crimes de que fora condenada.

No espírito da conferência internacional sobre Simon Kimbangu, fundador da referida denominação religiosa, por ocasião do 50º aniversário da independência da República Democrática do Congo (RDC), o governo daquele país homenageou Kimpa Vita a título póstumo, outorgando-lhe a medalha de heroína.

A medalha foi entregue ao chefe espiritual que, por canais diplomáticos diligencia a sua entrega ao governo da República de Angola, por se reconhecer a originalidade angolana da homenageada.

A igreja kimbanguista considera Kimpa Vita uma profetisa e mártir da fé em Deus, que profetizou o advento de Simon Kimbangu antes de sua morte no dia 02 de Julho do longínquo ano de 1706.

Por via da sua revolução, chamada de "Antonianismo", prosseguiu o reverendo, Kimpa Vita procurou africanizar a igreja de Cristo, instituindo num tipo de religião que pudesse responder favoravelmente as aspirações e valores propriamente africanos.

A sua ousadia, naquela altura, custou-lhe a própria vida, tendo sido queimada viva em conjunto com seu filho de tenra idade e o marido. As consequências da sua acção vitimou também o povo que se viu forçado a procurar refúgio no vizinho Congo Democrático.

Segundo Joaquim Kilombo, nas vésperas da morte, Kimpa Vita deixou claro que depois dela viria um Kimbangu para resgatar o povo da escravidão e da humilhação.

“O menino que vos haveria de nascer aqui, transferiu-se para bem longe, haveis de sofrer bastante com isso, galgareis grandes distâncias a procura de assistência espiritual”, advertiu a profetisa.

À família mais próxima, ela recomendou que se refugiasse para o interior da actual RDC, onde dos seus ascendentes proveio mama Lwezi, que gerou Simon Kimbangu, a 12 de Setembro de 1887, 181 anos depois daquela profecia.

Por conseguinte, concluiu-se que Simon Kimbangu e o kimbanguismo são originariamente de Angola actual, sublinhou Joaquim Kilombo, razão pela qual, acrescentou, os kimbanguistas se engajam e instam as instâncias supra-nacionais a propósito da reabilitação efectiva (total) destes dois vultos da história de África porque os seus feitos, o combate e sacrifícios que consentiram chamam atenção para a conjugação de esforços em honra de suas memórias.

Kimpa Vita granjeou prestígio e notoriedade no espaço Kongo e não só, a sua revolução foi tida como um projecto de salvação e ela própria foi reconhecida numa espécie de chefe espiritual. O seu movimento de cunho estritamente religioso, veio a rotular-se de revolução político-religiosa por causa do que proclamava.

Reconhecendo o papel de anunciadora do Kimbanguismo, Diangienda Kuntima, o mais novo dos três filhos do profeta Simon Kimbangu, então chefe espiritual da igreja, sempre deixou claro que um dia se iria prestar uma merecida homenagem à Tata nkento (tia paterna), termo afectiva atribuído à profetisa Kimpa Vita.

Em 1960, uma missão chefiada por Henrique Yoani, responsável dos “Nzambi a ngunza” deslocou-se à floresta denominada “Mfind’evululu/Loma”, na serra de Canda, município de Kuimba, província angolana do Zaire.

Dois integrantes dessa missão ainda estão em vida, zelando pela conservação das três campas no formato em que foram encontradas.

Em 2005, o actual chefe espiritual da igreja kimbanguista, Simon Kimbangu Kiangani, despachou uma outra equipa chefiada pelo reverendo Miguel Nunes, para novamente visitar o mesmo local.

Joaquim Kilombo adiantou que sem substituir-se ao estado e governo angolano de quem pede e espera um maior envolvimento, a iniciativa da igreja kimbanguista visa no fundo contagiar a sociedade angolana e não só, para juntos e unidos empreender-se uma caminhada difícil mas que fundamentalmente resulte na reabilitação de facto da profetisa Kimpa Vita e do profeta Simon Kimbangu.

A igreja kimbanguista agradece as manifestas sensibilidades que se fazem sentir com intensidade, advogando que se faça algo de substancial a favor desses dois mártires africanos.

“Preconizamos um processo de desculpabilização dos nossos mártires porque hoje, revistas em consciência e fé cristã, as circunstâncias que levaram à condenação e morte dos nossos heróis, sob os rótulos de “feiticeiros, reincidentes e heréticos”, nos demos conta do quanto abomináveis foram tais sentenças”, rematou o prelado kimbanguista.

Kimpa Vita e Simon Kimbangu, prosseguiu Joaquim Kilombo, longe da condição de heréticos de que foram acusados, não promoviam acções de destruição da mente cristã, muito pelo contrário a matriz social e política das comunidades que se reportavam tinham sido destruídas pelos mentores da sua morte uma vez que o evangelho estava sendo desvirtuado, dali a vigorosa acção de ambos com intuito de reorientar o sentido de missão, rematou o reverendo Kilombo.

Para si, ambos foram condenados com o único propósito de aniquilar as figuras que se propuseram tão-somente a trabalhar para a preservação da identidade cultural e promoção dos direitos humanos.

Joaquim Kilombo acredita que "em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo", os kimbanguistas vão alcançar a desejada reabilitação de Kimpa Vita e Simon Kimbangu, atendendo ainda a conjuntura internacional em matéria de relações entre os povos que está a conhecer uma nova dinâmica.

Assuntos Província » Cabinda  

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