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07 Abril de 2004 | 13h29

Morte de Gabriela Antunes deixa um vazio na literatura infantil angolana

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O desaparecimento físico de Gabriela Antunes abalou a literatura infantil angolana

Foto: Foto Angop

Por Pedro Cardoso

Luanda, 06/04 - Ainda alguns de nós lembravam-se da data que se acabava de assinalar, o 02 de Abril, dedicada a literatura infantil em todo o mundo, em memória ao dinamarquês Hans Cristians Andersen, quando a notícia da morte da escritora angolana Maria Gabriela Cardoso da Silva Antunes, ocorrida dia três, sucedida após uma intervenção cirúrgica, foi divulgada pelos meios de comunicação, deixando-nos a todosconsternados pelo seu desaparecimento físico.

Nascida aos 08 de Julho de 1937, na província do Huambo, a professora e escritora Gabriela Antunes aliou o seu dinamismo à preocupação constante de ensinar, e com escritores como Cremilda de Lima, Dario de Melo, Maria Celestina Fernandes e Maria Eugénia Neto, deu início a um longo percurso com o objectivo de dignificarem a cultura nacional.

Bastante habituada às salas de aulas, Gabriela Antunes assumiu-se como um dos pilares da literatura infantil angolana no período pós independência, tendo afirmado publicamente em diversos momentos que escolheu essa opção pelo facto de não haver, no período colonial e nos primeiros anos pós independência, obras para crianças angolanas "que lhes falasse das suas coisas, das suas terras, belezas e gentes".

Embora a literatura infantil angolana tenha dado os seus primeiros passos em vésperas da independência, com "A caixa", de Manuel Rui Monteiro ou ainda "As aventuras de Ngunga", de Pepetela, é na década de 80 que ela atinge o seu auge.

Exactamente no início deste período, 1980, quando a escritora Gabriela Antunes é transferida do Ministério da Educação para a então Secretaria de Estado da Cultura, dirigida na altura por António Jacinto, ela iniciou de forma mais activa a sua actividade como escritora infantil, coordenando um pequeno grupo que se dedicava fundamentalmente à escrita para crianças no Instituto Nacional do Livro e do Disco (INALD).

Integrado por Dario de Melo, Octaviano Correia, Rosalina Pombal, Cremilda de Lima e Maria Eugénia, estes escritores tinham como um dos seus principais veículos o suplemento infantil 1º de Dezembro, do Jornal de Angola, e é neste contexto que Gabriela Antunes lançou a sua primeira obra dedicada a crianças, com o título "A águia, a rola, a galinha e os 50 lweis".

A estratégia para o desenvolvimento da literatura angolana adoptada por estes homens de letras, dirigidos por Gabriela Antunes, consistiu em partir do conto tradicional angolano adaptando-o a uma linguagem para crianças, de modo a permitir que o processo de formação destas pudesse abarcar aspectos ligados a sua terra.

A versatilidade destes criadores permitiu o surgimento de outras iniciativas como o da livraria Miriui, em 29 de Novembro de 1980, que serviu de local de ensaio das estóriasinfantis que seriam publicadas no Suplemento 1º de Dezembro, onde os autores assumiram, através de um sistema rotativo, o compromisso de apresentar uma obra por mês às crianças.

Os petizes angolanos puderam ver ainda deste grupo o lançamento da colecção"Piô...Piô...", do Inald, reunindo seis escritores, seis cores e 12 obras, todas elas ilustradas por António Dominguez, publicada em 1982.

Em 1986, a revista TVEJA, da Televisão Pública de Angola (TPA), iniciou a publicação de textos infantis, numa altura em que Gabriela Antunes passou a coordenar igualmente o programa infantil desta, e apresenta-nos de sua autoria as estórias"Luhuna, o menino que não conhecia flór viva" e "A abelha e o pássaro".

Neste mesmo ano, pela colecção Miriui, dela podemos ver surgir ainda "A noiva do Rei" e é nesta fase que o projecto terá atingido um dos pontos mais altos, tornado-se já uma referência para as crianças angolanas, a par de outras iniciativas que iam surgindo.

São igualmente resultado do trabalho deste grupo, em que a escritora Gabriela Antunes jogou um papel preponderante, o "Jardim do Livro Infantil" e o "Festival do Livro da Criança", que começou a ser festejado a partir de 1980.

Estas e outras iniciativas terão merecido, aos dois (2) de Junho de 1984, a sua admissão como membro da União dos Escritores Angolanos (UEA).

O seu rico labor literário no domínio das letras infantis integra ainda obras como: "Kibala o rei Leão" (1983), "O Castigo do Dragão Glutão" (1983), "O Jardim do Quim" conto incluído na colectânea intitulada Lutchila e Outras estórias (1985), "O João e o Cão" , "Estórias Velhas Roupa Nova" (1988) e diversos contos infantis publicados em jornais.

Na sua última estória infantil publicada, enquadrada na obra " 4 estórias ", do Instituto Nacional do Livro e do Disco, podemos ler " Kibala, o rei leão", onde Gabriela Antunes fala-nos de valores como a liderança, bondade e respeito, sendo para todos nós, adultos e crianças, uma bela e simples lição de vida.

Na sua luta, o desejo de um mundo melhor para todos, a vida em comunidade, o amor e respeito pelos outros, pela natureza e pelo livro, foram sempre destaques nas suas obras e enquanto docente, numa carreira de mais de 40 anos.

Defensora acérrima de incentivos para os escritores infantis, de modo a aumentarem a publicação de obras, e do fomento de hábitos de leitura nas crianças, Gabriela Antunesdeixa o mundo dos vivos, restando aos que ficam dar continuidade ao seu legado.

Neste contexto, muitos nomes ligados a literatura infantil angolana foram desaparecendo, outros, ainda que desgostosos com a situação, timidamente foram resistindo, publicando de modo irregular alguns trabalhos infantis.

Com o desaparecimento físico desta ilustre escritora, cuja cerimónia fúnebre realiza-se quinta-feira, no cemitério do Alto das Cruzes, em Luanda, existirá, de certeza, "um grande vazio na literatura infantil angolana", pela ausência do seu dinamismo que marcou profundamente a sociedade durante todos estes anos.

Quis a história que o nome Gabriela Antunes estivesse para sempre ligada à literatura, levando-lhe a vida num mês dedicado a literatura infantil, o que nos permitirá lembrar, com admiração e carinho, o seu contributo para o desenvolvimento desta arte e de uma forma geral para a cultura nacional.